Tem algo acontecendo na Itália que poucos sabiam. As florestas do país cresceram tanto que, desde 2020, já ocupam mais território do que as terras cultivadas. Para encontrar uma situação parecida, é preciso voltar quase mil anos — até a Idade Média.
Os dados vêm do relatório "Foreste in Comune" (Florestas nos Municípios), elaborado pelo PEFC Italy em parceria com a Uncem, a Legambiente e o Consorzio Caire. O levantamento revela que as áreas florestais italianas ultrapassaram 100 mil quilômetros quadrados, cobrindo mais de um terço do território nacional, o equivalente a cerca de 11 milhões de hectares. Comparado a 1970, quando as florestas ocupavam aproximadamente 6 milhões de hectares, a expansão quase dobrou em meio século.
O número impressiona. Mas a história por trás dele é mais complexa do que parece.
Boa parte desse crescimento não veio de políticas ambientais ou campanhas de reflorestamento. Veio do abandono. Nas últimas duas décadas, cerca de 1,3 milhão de propriedades rurais encerraram as atividades, especialmente nas zonas de montanha e colinas mais remotas. Agricultores envelheceram sem sucessores. Vilarejos perderam moradores. E a natureza foi voltando, silenciosamente, a tomar o espaço antes cultivado.
Entre 2000 e 2020, a área agrícola utilizada no país caiu 21,5%. As florestas, por outro lado, cresceram 72,6% desde 1936 e ainda registraram avanço de 4,9% entre 2005 e hoje. A Itália só perde para a Espanha entre os grandes países da União Europeia em cobertura florestal proporcionalmente ao território.
A distribuição, porém, é desigual. Cerca de metade dos quase 7.900 municípios italianos tem presença florestal pequena ou quase inexistente, com índice de cobertura abaixo de 20%. As florestas estão concentradas nas regiões de montanha — justamente onde a população diminuiu mais. Um exemplo extremo é o município de Marcetelli, na Província de Rieti, onde 94% do território é coberto por árvores. Os serviços ambientais prestados pela floresta local — captação de carbono, filtragem da água e do ar, contenção de erosão — valeriam, segundo cálculos do relatório, cerca de US$ 9,5 milhões por ano.
É uma oportunidade real. Ecoturismo, silvicultura sustentável, recuperação de biodiversidade. Ao mesmo tempo, a expansão florestal sobre antigas áreas produtivas traz desafios para comunidades que dependiam da agricultura e veem sua identidade rural se transformar.
O que a Itália vive hoje não é exatamente uma vitória da política ambiental. É o resultado de um país que está mudando por dentro, com seus campos em silêncio e suas florestas crescendo no lugar. Seja como for, as árvores voltaram — e em escala que não se via desde os feudos medievais.
Fonte: Good News Network
Créditos da imagem: Magnific